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Diário de Bordo 3 | Amplifica no Vale do Silício

Confira o Álbum de fotos que criamos para você visualizar nosso dia no Los Gatos High School e visualizar o que contamos aqui em nosso diário de bordo.


A atenção e generosidade de preparar um itinerário especial para um dia no Los Gatos High School já nos deixou animadas. Conhecer a Stephanie Rothstein, Google Innovator da California que nos abriu as portas da Los Gatos High School e nos promoveu um dia de conversas e conexões potentes, isso realmente não tem preço. Como muitos já devem saber, o sistema americano de ensino funciona de forma diferente da nossa no Brasil. Os alunos têm que cumprir x anos das disciplinas principais, como inglês, história, ciências, mas têm a flexibilidade de fazer disciplinas eletivas que fazem parte da trilha formativa que escolherem, e as escolas têm a flexibilidade de dar várias opções e oportunidades para os alunos em diversas áreas do conhecimento. Até aí, Los Gatos High School não difere de outras escolas americanas. Queremos trazer para você, educador e líder educacional, o que nos chamou atenção, o que podemos trazer para o nosso contexto, insights e percepções que podem nos ajudar a evoluir em nosso próprio ecossistema educacional, mesmo com as amarras que temos em termos de leis e regulações do MEC. Em cada lugar da escola que passávamos, nós nos entreolhávamos e dávamos aquele sorriso de entendimento não-verbal de que “Nossa! Que fenomenal. Não dá para adaptarmos algo assim ou como adaptamos isso para nossa realidade brasileira?”

Aqui, alguns pontos que nos chamaram atenção.

TUTORIALS. Um horário no dia para suporte acadêmico. 
A Los Gatos High School redesenhou seus dias para os alunos. Em um dia, eles têm apenas três disciplinas com 90 minutos cada. Percebeu-se que com 90 minutos, as aulas poderiam ser bem mais produtivas e também daria mais tempo para os professores aprofundarem conceitos, as experiências de aprendizagem. Além disso, no segundo horário depois do bloco de 90 min, todos os alunos têm um período de 45 minutos chamado TUTORIALS. No período de TUTORIALS, os alunos devem estar em alguma sala na escola trabalhando com outros alunos em seus projetos, tirando dúvidas com os professores, fazendo testes para recuperação. Como nossa guia Steph nos disse, o sistema ainda não é perfeito, mas tem evoluído para que seja proveitoso para os alunos. Todos os alunos fazem check-in na sala em que estão (ainda é feito manualmente no papel, mas em breve será um check-in digital). Não podem estar circulando pela escola, mas sim em uma sala. Alguns professores solicitam aos alunos que precisam de algum tipo de apoio acadêmica que venha à sala deles na hora do tutorials. Conceito interessante que dá aos alunos a chance de se conectarem com outros alunos, de terem um momento para trabalharem em seus projetos, recuperarem o conteúdo de alguma lacuna que ainda têm na aprendizagem.

Quando andamos pelas salas, havia de tudo, grupos trabalhando, alunos no celular, trocas com professores, salas mais quietas, salas em festa. O que gostamos foi o fato de ser um momento de  mais descontraído, informal, de trocas e conexões que fazem também parte das experiências de aprendizagem.

PARA REFLETIR: Será que no seu ambiente educacional poderia se abrir um espaço para o “TUTORIALS”? Se não dá para ser diário, quem sabem uma ou duas vezes por semana? E antes que apressadamente a gente diga que não é possível porque temos muito “conteúdo pra dar”, quem sabe pequenas mudanças no calendário escolar tragam novas perspectivas para o aprendizado?

TOSA. Teacher on Special Assignment.
O professor TOSA (teacher on special assignment) é vinculado a alguma especialidade, tecnologias educacionais, educação especial, STEAM. É algo como nosso TE, só que não. No Brasil, muitos TEs ainda são contratados fora do quadro de professores e têm uma função ainda bem tecnicista de controlar os equipamentos da escola, os empréstimos, indicar ferramentas digitais e apps para o professor. Há inclusive locais onde as funções de TI e TE se misturam. É claro que há escolas por aqui que já entenderam a importância de uma abrangência maior para os especialistas em Tecnologias Educacionais, mas ainda são poucas as que investem nesta posição como forma de desenvolvimento contínuo da equipe acadêmica. E muitas vezes quando o fazem, mantém a carga do professor em sala de aula tão alta que ele não consegue fazer muito. No caso dos TOSA nas escolas americanas, eles têm a função de desenhar trilhas de formação profissional, trabalham diretamente com os professores criando projetos e dando suporte para eles, dão apoio técnico, acompanham os professores em algumas aulas, desenvolvem e implementam boas práticas educacionais, atendem às necessidades dos professores e dos alunos. Enfim, o TOSA desenvolve uma comunidade de prática e proporciona um ambiente propício para um aprendizado conectado. Stephanie, nossa anfitriã em Los Gatos, é uma TOSA. Tem autonomia nos projetos que desenvolve e na forma como apoia os professores. Claro que se reporta ao diretor, mas tem autonomia para criar e desenvolver projetos que façam sentido para a comunidade educacional. Tem uma turma conectada ao projeto LEAD até para entender como integrar as diferentes disciplinas com os outros professores, mas tem tempo para criar, desenvolver, implementar, medir resultados, apoiar. E se estamos pensando em evolução, inovação, é essencial que na instituição educacional tenhamos um educador especialista que seja ponto de integração entre as diversas áreas e pessoas e que tenha tempo para desenvolver um projeto amplo de desenvolvimento continuado na escola.

PARA REFLETIR: Como a sua instituição tem desenhado programas de desenvolvimento profissional? Quem lidera o processo?

 

LEAD. Programa interdisciplinar (inglês, história, biologia, química, governo, cinema) de 4 anos para os alunos.
O LEAD nos interessou por ser exemplo de PBL (aprendizagem baseada em projetos) na veia. PBL na prática em que os professores criam trilhas de aprendizagem para os alunos que decidem por participar do programa. Trabalham em projetos para resolverem problemas reais, integrando várias discplinas ao longo dos 4 anos de Ensino Médio, inclusive com a possibilidade passar com mérito nas matérias.

As premissas do LEAD são
LEARN – aprender por meio de PBL para desenvolver conexões entre linguagens, história e ciências
EXPLORE – Questionar, buscar caminhos para explorar possibilidades de solução para problemas do mundo real
ACT – Ação, fazer mudanças para impactar o mundo ao seu redor
DESIGN – moldar o aprendizado por meio dos princípios do Design Thinking

PARA REFLETIR: E a sua escola, já está pensando nas trilhas formativas do Ensino Médio? Já pensou criar algo nestes moldes? E pensando nos menores, como podemos promover mais experiências relevantes multidisciplinares?

 

PAWS. Providing Awareness for Wildcats Students.
Peer to peer Education, aprendizado por pares. Este é um programa de aluno para aluno com mentorias, publicações sobre assuntos relevantes para a comunidade discente e problemas que os adolescentes vivem na rotina deles. Projeto lindo desenvolvido pela super bibliotecária brasileira Mariana Cozzella. O espaço da biblioteca já tem aquela vibe de biblioteca viva que recebe os projetos dos professores de outras disciplinas para decorar e dar mais cor ao espaço. Estão organizando um TEDx por lá. Já dá para sentir que já pensam no espaço como um lugar para exploração, curiosidade, aprendizado e principalmente comunidade. E o papel dos bibliotecários não se restringe à curadoria e empréstimo de livros. É lugar de interseção e conexão entre as diversas tribos.

PARA REFLETIR: E como a biblioteca se encaixa no fazer pedagógico da sua escola? Diria que é um espaço vivo ou sem vida? Como ela poderia ser redesenhada e repensada como um lugar de encontros e muito aprendizado?

AUTONOMIA. Na prática.

Sequência e opções para alunos que seguiam autonomamente diferentes trilhas

Falamos tanto no desenvolvimento de alunos autônomos e auto-dirigidos, mas para que isso aconteça, é preciso gestão de aula, protocolos e rotinas que os alunos se adequem e saibam o que é esperado e como realizarão as atividades. Na Los Gatos High School, vimos isso na prática, acontecendo em várias disciplinas, em diferentes momentos do dia. E como isso ocorre e ficou visível para a gente?

Sequência para os alunos que trabalhavam em grupos nas mesas

Em muitas salas que entramos, saber quem era aluno e quem era professor era quase que indistinguível. Tínhamos que localizar o professor que se misturava com os alunos. Em muitos, casos, não havia a frente da sala. Os professores circulavam, mentorando os alunos que sabiam exatamente o que tinham que fazer. Tinham as instruções no quadro da trilha de aprendizagem que os alunos deveriam seguir, em grupo ou individualmente. Nos APs que são programas avançados das disciplinas para aqueles alunos que querem ir além já com nível universitários, os alunos eram ainda mais autodirigidos. Em um lab de ciências, por exemplo, havia várias mesas com meninas pesquisadoras. Elas tinham suas timelines (linhas do tempo) com os prazos para cumprir, o que era esperado em cada etapa do projeto  e em seus cadernos e digitalmente mantinham o acompanhamento dos projetos, inclusive nos diziam, “estou atrasada nesta etapa do projeto”.

É claro que autonomia é atitude e rotina, e para isso, o professor precisa ter a visão do todo seja do ano, do semestre, da unidade, e planejar as atividades e trilhas de aprendizagem em partes para que o todo faça sentido. Inicialmente, dá mais trabalho, mas quando se acostuma com esta forma de ensinar, libera tempo de aula para circular, para tirar dúvida, para ver os alunos que muitas vezes nos passam desapercebidos. Em Los Gatos, vimos este processo de aprendizagem na prática, e o que nos chamou atenção é que o dia a dia do professor fica mais leve e menos cansativo quando estabelece esta rotina rumo à autonomia dos alunos. Sem falar na parte de diferenciação e personalização do aprendizado que teremos um post todinho sobre o assunto!

PARA REFLETIR: Como você tem pensado suas práticas pedagógicas rumo à autonomia do aluno? Quem tem trabalhado mais em sala de aula, você ou o seu aluno?


PROJETOS DOS PROFESSORES. Autonomia para propor.
Quantas vezes criticamos o status quo, o ambiente em que trabalhamos, nossa sala de aula, nossa condição, mas o que Los Gatos nos mostrou é que a parceria público-comunidade seja ela comunidade de alunos e professores e toda a equipe da escola, ou até mesmo escola-pais pode fazer milagres. Los Gatos High School é uma escola pública, mas altamente equipada com vários tipos de labs não só de ciências, mas de moda, 3D design, de madeira, mecânico. Muitos dos móveis da sala variam de acordo com o professor ou com o programa, mas como conseguem isso? A escola tem um comitê de pais. Os professores podem desenhar um projeto seja ele acadêmico ou até mesmo de redesenho da sala, fazem a proposta para o comitê de pais que pode aprovar e financiar o projeto.

PARA REFLETIR: É claro que estamos falando de uma região muito abastada e estruturada do Vale do Silício com uma renda per capita alta, mas não deixamos de considerar quantos projetos poderiam ser realizados nas escolas se fortalecêssemos estas parcerias com a comunidade, com os pais, não em reuniões informacionais e burocráticas da escola, mas em comitês que se reunem para buscarem formas alternativas de solução dos desafios da escola para que cada aluno exerça o seu direito a uma aprendizagem de qualidade e com oportunidades.

 

Los Gatos nos trouxe esperança e angústia ao mesmo tempo, esperança porque somos criativos, temos professores incríveis, engajados que têm como missão levar aos alunos uma educação de qualidade, e temos no Brasil casos de sucesso de escolas públicas que mesmo sem muita infra e recursos conseguem excelentes resultados, impacto e o melhor de seus alunos. Angústia porque vemos as possibilidade e entendemos o grande abismo competitivo que temos que enfrentar em relação a um sistema educacional que está muito mais alinhado às demandas de formação de cidadãos do século XXI e de futuros profissionais. Os desafios são enormes, e talvez o maior deles é entender que há caminhos viáveis. Só temos que encontrar o nosso.

 

Team Amplifica
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